Zezinho do Sobrenome Esforçado Silva

Texto de Wil Scaliante*

O garoto tem seus méritos. Todo dia acorda antes do sol raiar pra passar uma forte xícara de café. Seu nome é Zezinho do Sobrenome Esforçado da Silva, mora sozinho, não tem filhos, nem cachorro, a única coisa que tem é seu esforço. Zezinho sonhador, como por muitos é apelidado, trabalha de manhã e de tarde, ganha pouco e estuda de noite. Sonha com o futuro, fazendo o presente, sonha acordado, por que quando joga os cabelos no travesseiro o sonho é pesado.

O jovem todo dia dá duro, tão duro que chega a ficar mole, de pernas bambas e cabeça pesada, mas não reclame por que não gosta de perder tempo se queixando. É feliz por estar realizando seu sonho, que não é uma mansão, um carro importado ou uma casa na praia, seu sonho é o conhecimento. Zezinho agradece ao presidente mesmo sem o conhecer, por ter dado a ele a oportunidade de aprender. Zezinho é bolsista do Prouni.

Filho de Chiquinha do Sobrenome Esforçado,não nasceu em berço de ouro, nem em hospital pago. Zezinho é orgulhoso de si mesmo, se orgulha de saber o que está falando. Quando sabe gesticula, explica, fala, argumenta, critica. Quando não sabe, abaixa a cabeça e escuta, depois pesquisa pra saber se é verdade.

Tão jovem sai de casa as sete e volta à meia noite, pega dois ônibus pra ir pra aula e dois pra voltar. Ônibus mesmo daqueles lotado, que tão raro quanto ganhar na loteria é você conseguir ir sentado. Mas educação não lhe falta, quando uma senhora de idade entra na condução, mas do que rápido, Zezinho levanta e estica a mão.

No ônibus ele enxerga um menino, que tem só dois anos, e no meio de todo essa correria, ele acha tempo pra ser simpático. Pergunta nome, idade e sorri. O menino retribuiu com uma gargalhada e logo em seguida faz charminho de criança e mostra a língua.

Zezinho gosta de crianças, lembra dos seus irmãos e de quando teve infância. Miudinho correndo na rua de casa, chutando bola e brincando com a garotada. Taí outro sonho de Zezinho ter filho, ele imagina como seria o seu menino. Mas ainda não achou mãe pra criança, pois pra ele não é fácil ter tempo pra tanta coisa.

Será que Zezinho tem amigos? Muitos, de faculdade, de trabalho, de rua e vizinhos. Ele gosta de uma cerveja, pra trocar idéias e filosofar ao pé de uma mesa. E olha que Zezinho matava aula de vez em quando, pra esquecer um pouco do dia a dia e tomar uma gelada com a meninada. Mas agora é proibido, parece crime, boteco perto da universidade, só a 150 metros. Uma opção de lazer a menos pra Zezinho, diante de tantas, tantas, tantas que ele tem. São tantas que ele não se lembra de nenhuma outra.

Mas Zezinho é inteligente e orgulhoso, de jeito nenhum aceita ser tratado como criminoso. Enche a boca pra falar que é estudante, e de vez em quando levar porrete de policial. Essa história Zezinho insiste em contar, que certa vez depois de um vestibular, que fez na UEM e não passou. Tava sentando na casa de um amigo, ali na Zona 7 onde mora, e depois da prova, abriu uma cerveja e começou a tomar, dai veio o seu policial pra com ele reclamar. “Agora é lei, não pode mais beber aqui em época de vestibular”. Zezinho não entendeu e foi logo indagar: “que crime cometi por minha cerveja tomar?” Zezinho sempre gostou de ser livre e não aceita repressão e pra todo mundo que encontra, conta a história e diz: “estudante não é ladrão”.

* Wil Scaliante, 20, é estudante de História-UEM , Jornalismo-CESUMAR e dirigente da União Paranaense dos Estudantes.

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A repressão travestida de proteção

Luiz Fernando Rodrigues*

Como você se sentiria se fosse abordado (a) pela polícia por circular em um espaço público fora do horário determinado por lei? Se você respondeu que se sentiria incomodado (a), há de concordar comigo que a lei do toque de recolher enfatiza um preconceito, ou seja, qualquer pessoa que seja abordada por uma autoridade policial se sente criminalizada. É o que estão tentando fazer com os jovens e adolescentes.

Criar leis para recolher o cidadão (seja adolescente, jovem ou adulto) de um espaço que é público é assumir a incompetência das autoridades frente aos problemas de violência e (in)segurança que vivemos hoje, pois o espaço público já não é mais um local adequado para convivermos. Quando a lei é personalizada para o jovem ou adolescente, isso se torna ainda mais grave: estamos transferindo a este jovem ou adolescente a culpa por ele não poder estar ou circular por determinado local.

O espaço público é o local de construção da identidade, onde o (a) jovem tem a oportunidade de entrar em contato com o diferente e, mesmo diante de conflitos, construir sua personalidade, é o espaço da felicidade do jovem.

Quando criamos leis no sentido de privá-lo desta convivência, estamos subsidiando uma prática que, infelizmente, tem sido comum e que é apontada como uma das principais causas da violência: o individualismo. É no ambiente privado, ou seja, sem o contato com o diferente, que se cria este sentimento de que o diferente deve ser encarado como nocivo.

Outro fator que deve ser levado em consideração é o de que a violência está mais presente no espaço privado (doméstico) do que no espaço público e que, mesmo no espaço público somente 0,06% dos crimes contra a sociedade são praticados por jovens e adolescentes. Então uma pergunta é inquietante: se somente uma pequena parte dos jovens/adolescentes são responsáveis por crimes e a maior parte da violência começa dentro de casa, porque privá-los do uso dos espaços públicos e criminalizar toda uma geração?

Um dos argumentos mais utilizados é de que a opinião pública apoia esta iniciativa. Cabe analisar verdadeiros crimes cometidos por autoridades em nome da opinião pública: o governo nazista de Hitler, por exemplo, estabeleceu toque de recolher aos judeus e depois os matou em um genocídio cruel condenado, hoje, por todos.

Também o governo americano, na mesma época, restringiu acessos a imigrantes de outras etnias. Preocupa-me quando discutimos temas como toque de recolher e a redução da maioridade penal como se fossem a resolução de todos os problemas de violência que assolam a sociedade, tudo isso em nome da opinião pública.

Talvez dentro de alguns anos estejamos discutindo formas de também eliminar a juventude, fazendo com que as pessoas nasçam já adultas ou que antes de nascer, o cidadão seja preso porque ele tem genes que o definem como um possível criminoso no futuro.

Estabelecer leis que suprimem direitos conquistados a partir de lutas históricas é, com certeza, um retrocesso da democracia, uma verdadeira ditadura, onde o estado (representado pelos poderes legislativo, judiciário e executivo) por incompetência e com o apoio de pais que não cumprem com suas responsabilidades para com seus filhos (as), estabelece quem e quando se deve ir a determinado local e horário.

Com certeza este não é o caminho. A verdadeira saída para o problema da violência entre os jovens e adolescentes é a efetivação do ECA enquanto lei que protege e que garante penalidade àqueles que o infringem (tanto pais como adolescentes infratores e até agentes públicos) e a construção de políticas públicas para a juventude, criando espaços públicos adequados às práticas culturais, esportivas e educacionais, formando verdadeiros cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

* Luiz Fernando Rodrigues é administrador, educador, dirigente da APP Sindicato Maringá, integrante da Pastoral da Juventude e participa do comitê contra a criminalização da juventude. O texto foi publicado hoje em O Diário.