Uma lei seca de argumentos

Imagine-se na seguinte situação: Depois de ralar muito tempo como empregado, você abre o próprio negócio – um bar próximo a uma universidade. O seu boteco sempre teve alvará e impostos pagos em dia. Jamais vendeu cigarros e bebidas para menores de 18 anos, nem mesmo deixava a molecada jogar sinuca. De repente, vereadores aprovam uma lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas proximidades das Instituições de Ensino Superior da cidade. O modesto bar, até então o sustento da família, agora não é mais viável e terá que fechar as portas.

A situação descrita, apenas hipotética para o leitor, é real para alguns comerciantes de Maringá que foram diretamente prejudicados com essa lei. Ao me posicionar contra a lei, convido-os a refletirem comigo a respeito de quatro questões pertinentes:

1) A incompetência do Estado para fazer cumprir leis já existentes. Para evitar “tumulto” nas ruas em torno das universidades, leis referentes a aglomeração de pessoas, som alto dos carros, entre outras, dariam conta do recado. Mas o Estado, carente de investimentos em segurança pública, não é capaz de fiscalizar o cumprimento de tais leis. A solução, então, é criar outros decretos proibitivos, afinal, proibir de uma vez é mais fácil (e mais barato) do que fiscalizar.

2) A Lei Seca só está a favor do conservadorismo. Os defensores da Lei Seca afirmam que trata-se de uma medida importante para proteger o jovem da violência e tirá-lo do mau caminho. Ao impor certos limites comportamentais, o Estado assume um papel familiar que não é dele. Em nome do conservadorismo, fatores econômicos são negligenciados. O dinheiro movimentado pelos estudantes universitários possui grande importância para a economia local, inclusive gerando muitos empregos.

3) A guerra declarada que o poder público trava contra os estudantes universitários de Maringá. Somos tratados como o grande mal da cidade. Conservadora e provinciana, a elite coronelista da cidade não aceita que os jovens, além de estudar e se preparar para o mercado de trabalho, também precisam de diversão. Relatos de abuso de violência policial contra estudantes se multiplicam. Enquanto isso, os verdadeiros problemas da cidade que afetam a população jovem – a criminalidade, o tráfico de drogas, o desemprego – estão muito longe de serem resolvidos.

4) A praticidade da lei. O município, agindo de maneira paternalista, “afasta” a comunidade universitária da bebida alcoólica, impondo uma distância de 150 metros da universidade para que um estabelecimento possa vendê-la. Detalhe é que, andando mais alguns metros, ela continua sendo vendida livremente.

Concluindo, a Lei Seca é antes de tudo anticonstitucional, pois proíbe a comercialização de um produto legal, que gera divisas e recolhe tributos. Não há como negar os malefícios causados pelo álcool, porém, medidas que restringem e proíbem o seu consumo em certas circunstâncias já estão em vigor. Proibir a venda de bebidas alcoólicas é um atentado a liberdade de dezenas de comerciantes cumpridores da lei e de estudantes maiores da idade que sabem dos seus deveres e limites.

ilustração: Carlos Emar Mariucci Jr.

Anúncios

Zezinho do Sobrenome Esforçado Silva

Texto de Wil Scaliante*

O garoto tem seus méritos. Todo dia acorda antes do sol raiar pra passar uma forte xícara de café. Seu nome é Zezinho do Sobrenome Esforçado da Silva, mora sozinho, não tem filhos, nem cachorro, a única coisa que tem é seu esforço. Zezinho sonhador, como por muitos é apelidado, trabalha de manhã e de tarde, ganha pouco e estuda de noite. Sonha com o futuro, fazendo o presente, sonha acordado, por que quando joga os cabelos no travesseiro o sonho é pesado.

O jovem todo dia dá duro, tão duro que chega a ficar mole, de pernas bambas e cabeça pesada, mas não reclame por que não gosta de perder tempo se queixando. É feliz por estar realizando seu sonho, que não é uma mansão, um carro importado ou uma casa na praia, seu sonho é o conhecimento. Zezinho agradece ao presidente mesmo sem o conhecer, por ter dado a ele a oportunidade de aprender. Zezinho é bolsista do Prouni.

Filho de Chiquinha do Sobrenome Esforçado,não nasceu em berço de ouro, nem em hospital pago. Zezinho é orgulhoso de si mesmo, se orgulha de saber o que está falando. Quando sabe gesticula, explica, fala, argumenta, critica. Quando não sabe, abaixa a cabeça e escuta, depois pesquisa pra saber se é verdade.

Tão jovem sai de casa as sete e volta à meia noite, pega dois ônibus pra ir pra aula e dois pra voltar. Ônibus mesmo daqueles lotado, que tão raro quanto ganhar na loteria é você conseguir ir sentado. Mas educação não lhe falta, quando uma senhora de idade entra na condução, mas do que rápido, Zezinho levanta e estica a mão.

No ônibus ele enxerga um menino, que tem só dois anos, e no meio de todo essa correria, ele acha tempo pra ser simpático. Pergunta nome, idade e sorri. O menino retribuiu com uma gargalhada e logo em seguida faz charminho de criança e mostra a língua.

Zezinho gosta de crianças, lembra dos seus irmãos e de quando teve infância. Miudinho correndo na rua de casa, chutando bola e brincando com a garotada. Taí outro sonho de Zezinho ter filho, ele imagina como seria o seu menino. Mas ainda não achou mãe pra criança, pois pra ele não é fácil ter tempo pra tanta coisa.

Será que Zezinho tem amigos? Muitos, de faculdade, de trabalho, de rua e vizinhos. Ele gosta de uma cerveja, pra trocar idéias e filosofar ao pé de uma mesa. E olha que Zezinho matava aula de vez em quando, pra esquecer um pouco do dia a dia e tomar uma gelada com a meninada. Mas agora é proibido, parece crime, boteco perto da universidade, só a 150 metros. Uma opção de lazer a menos pra Zezinho, diante de tantas, tantas, tantas que ele tem. São tantas que ele não se lembra de nenhuma outra.

Mas Zezinho é inteligente e orgulhoso, de jeito nenhum aceita ser tratado como criminoso. Enche a boca pra falar que é estudante, e de vez em quando levar porrete de policial. Essa história Zezinho insiste em contar, que certa vez depois de um vestibular, que fez na UEM e não passou. Tava sentando na casa de um amigo, ali na Zona 7 onde mora, e depois da prova, abriu uma cerveja e começou a tomar, dai veio o seu policial pra com ele reclamar. “Agora é lei, não pode mais beber aqui em época de vestibular”. Zezinho não entendeu e foi logo indagar: “que crime cometi por minha cerveja tomar?” Zezinho sempre gostou de ser livre e não aceita repressão e pra todo mundo que encontra, conta a história e diz: “estudante não é ladrão”.

* Wil Scaliante, 20, é estudante de História-UEM , Jornalismo-CESUMAR e dirigente da União Paranaense dos Estudantes.

Quando o vestibular era uma festa

Com a lei seca vigorando nas proximidades da UEM durante a realização do vestibular, atualmente a paz impera por lá. Mas nem sempre foi assim. Até 2007, aquilo era uma putaria agitação só! Jovens se reuniam nos bares após as provas, e aprontavam mais confusões do que em filmes da “Sessão da Tarde”.

Aprontaram tanto, mas tanto, mas tanto, que tiraram a população idosa da Zona Sete do sério, e o poder público resolveu agir. Eis que os vereadores aprovaram a lei seca, que consiste em não vender goró nas proximidades da universidade durante a realização das provas, com direito à força-tarefa policial para impedir qualquer tentativa de desordem e balbúrdia. Termina assim a história desse importante evento maringaense – a festa do vestibular.

Para relembrar esses tempos, resgato dois vídeos produzidos para o saudoso Idéias Ácidas em julho de 2007. Trata-se de uma reportagem redublada. Marcio Tasca, o repórter, aprovou a edição do seu vídeo.