Maringá Horror Story

por Bruno Mosconi Ruy

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A foto em questão foi batida pela minha prima, Danielle Ruy Amaral, na noite de quinta para sexta-feira (31/01 – 01/02). Ela e eu dividimos um quintal às imediações do Hospital Psiquiátrico de Maringá. A cena, que peca um pouco pela nitidez, não poderia traduzir mais perfeitamente o desfoque sob o qual a administração de nossa cidade coloca seus “indivíduos irracionais”, emprestando as terminologias de Foucault. Trata-se de um homem, na casa de seus trinta anos, cruelmente asfixiado pelas grades da prisão à qual estava submetido. Ao tentar fugir do hospital, no início da madrugada, ele supostamente teve o diafragma seriamente lesionado, e morreu às mínguas, entre o mundo que o ignorou e a instituição que o excluiu. À ocasião da foto, enfermeiros e enfermeiras testemunhavam a retirada do corpo com desdém, troçando de sua inércia e rigidez como se fosse pouco mais do que um pedaço de pano enroscado entre os ferros. Isso não é novo. Em vinte e um anos de residência nas redondezas, já presenciei enfermeiros que, a despeito de uma inutilidade intrínseca, chegaram a incentivar que os internos saltassem dos muros de oito metros que separam o hospital do mundo – o que não raramente vinha a acontecer, entre sangue e ossos expostos.

A diretora geral do lugar assegura que “providenciou todas as medidas possíveis para atender o paciente”, o que alegadamente inclui atendimento médico. Mas que atendimento médico seria este, prestado à iminência do rigor mortis – fenômeno comumente iniciado entre três e quatro horas do óbito? A mesma diretora afirma que o homem estava internado por esquizofrenia, ainda que as informações iniciais o apontassem como dependente químico. Independente das suspeitas levantadas por esse inaceitável desencontro de dados, a quem cabe a responsabilidade pela fatalidade? Verdadeiramente, cabe um pouco a cada um de nós. Nas palavras de Roberto Machado, Doutor em Filosofia pela Université Catholique de Louvain, “… [esse] grande enclausuramento é […] um fenômeno eminentemente moral, um instrumento de poder político que, laicizando a moral e a realizando em sua administração, não apenas exclui da sociedade aqueles que escapam às suas regras, mas de modo mais fundamental, cria, produz uma população homogênea, de características específicas, como resultado dos próprios critérios que institui e exerce” (1988, p. 64-65). Aos desavisados, este movimento alienista é silencioso, organizado, sistemático – em Maringá, tal ingerência conta inclusive com uma bandeira. Esta, que na calada da noite, o Hospital Psiquiátrico arvorou em suas grades, sem nem mesmo dar-se à dignidade de meia-haste.

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