Boletim de Geografia

Encontrei, na Unicamp, seis edições em bom estado do Boletim de Geografia da UEM. São os exemplares de janeiro de 1984 (ano 2, #2), janeiro de 1985 (ano 3, #3), janeiro de 1986 (ano 4, #1), março de 1987 (ano 5, #1), junho de 1988 (ano 6, #1) e setembro de 1989 (ano 7, #1). Fizeram parte de seu conselho consultivo, entre outros, os grandes Antonio Christofoletti e Manuel Correia de Andrade. Em breve, poderei colocar aqui o índice dos boletins.

Curiosidade: durante o período da publicação destas edições, a UEM teve dois reitores: Paulo Roberto Pereira de Souza e Fernando Ponte de Sousa.

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Minha opinião sobre a rodoviária

Rodoviária velha: velhas discussões, novas soluções? *

A discussão sobre a antiga rodoviária é uma aula de Geografia. Deixem-me explicar, voltando ao conceito de espaço geográfico, base dessa ciência, sobre o qual a Universidade Estadual de Maringá dedicou uma questão no último vestibular.

Segundo Igor Moreira, citado na tal questão, o espaço geográfico é “um espaço humanizado, construído por meio do trabalho”. Ora, ele é, ao mesmo tempo, a matéria-prima e o produto final do trabalho humano; condicionante da ação humana ao passo que é condicionado por ela. Assim, tal sua importância, é interessante observar como a sociedade se relaciona com ele, especialmente em nossa cidade. Afinal, somos os atores protagonistas dessa relação: influímos e somos influenciados por ela.

O espaço – inclusive o urbano – também pode ser caracterizado por sua maleabilidade quando nas mãos humanas: pode ser moldado e constantemente renovado, de acordo com os interesses do momento. Essas renovações expressam-se, sobretudo, na forma de construções. Cada época apresenta edificações com estilo arquitetônico bem definido, que cumprem uma determinada função. Contudo, com o passar do tempo, os prédios têm essa função modificada, por vezes adquirindo um papel indesejável.

Com a construção do novo terminal rodoviário em Maringá, a rodoviária central passou a ser chamada de “velha” – mas já vinha sofrendo um processo de deterioração por falta de reformas em sua estrutura. A designação de “velho” traz implícita a idéia de inutilidade e degradação. Se há um idêntico novo, o velho é abandonado. Se a região da rodoviária atualmente é ocupada por pessoas consideradas desagradáveis por boa parte da sociedade, como ambulantes, prostitutas, desocupados, batedores de carteira, usuários de drogas, pedintes e por aí vai, a proposta de demolição da rodoviária – vista como símbolo de tudo o que há de mau por ali – reflete o pensamento de se extinguir rapidamente esse problema.

Quem dera fosse tão simples. Descarta-se a rodoviária velha, continuam os problemas. Se o Novo Centro, a alguns metros adiante, é um grande canteiro de obras, para que construir um novo prédio, em meio a tanto outros, sobre uma obra tão representativa para a história da cidade? Por que o velho – o prédio da rodoviária –, não pode conviver com o novo – as novas construções? A cidade com certeza precisa de uma renovação – não só ali, mas também em praças, no Parque do Ingá, na UEM, nas bibliotecas municipais –, mas deve respeitar e cultivar sua história. Descartá-la, nunca, mas, sim, adaptá-la à atualidade.

A região da rodoviária é valorizada do ponto de vista imobiliário. Há interesse em se adotar uma alternativa, digamos, mais democrática, que beneficie não só uma pequena parcela da população – justamente a interessada em um empreendimento do tipo? Repito: há interesse? No local pode ser criado um museu ou um espaço cultural, em uma cidade carente nesse aspecto. Ou um espaço público, onde se poderia emitir documentos à população, que têm de se descolar à Delegacia, na Avenida Mandacaru, ao Ministério do Trabalho, na Zona 3, ao Cartório Eleitoral, na Av. Herval etc. Com guichês da prefeitura para pagamento de tributos, com um posto policial… Tudo ao lado do terminal de ônibus: o acesso seria tão fácil! Alternativa também, para uma cidade com tantas feiras livres, é o Mercado Municipal, como sugeriu Adilson Carlos Gomes (9/7/2008). A estrutura da rodoviária, inclusive, é bem semelhante à do Mercado paulistano.

Aliás, a cidade de São Paulo, aonde a situação chegou ao ponto que é noticiada nos jornais, é o exemplo clássico dos problemas citados aqui. Maringá, entretanto, é um município muito jovem em comparação à capital paulista. Conflitos relacionados à antítese antigo-atual estão apenas começando a aflorar por aqui. Saber contorná-los logo no início é imprescindível. Afinal, uma Maringá maior e melhor não se construirá com idéias pequenas e limitadas – isso é que deveria ser abolido da nossa cidade! A renovação também deve ser feita nas cabeças dos que se intitulam cidadãos, e principalmente, nas cabeças dos que têm condições de decidir o futuro de Maringá.

* O texto foi escrito em julho de 2008 para O Diário — não foi publicado –, quando retornei de Campinas e percebi que as discussões sobre a rodoviária eram as mesmas desde o início de 2007 (continuam as mesmas ainda hoje, enfim). A questão do vestibular da UEM citada é a número 4 desta prova. É, também, uma resposta ao Diniz, que defende uma “revitalização” de um lugar que sempre foi vivo e, se não está assim agora, é por uma decisão autoritária, sim, da Prefeitura Municipal de Maringá, da qual é assessor de comunicação.

P.S.: Indico a leitura do trabalho deste trabalho de Veroni Friedrich e Silvia Zanirato, com uma análise lúcida do problema. Assino embaixo.