Sem o horário das aulas, estudantes perdidos da UEM vão parar no Cesumar

O primeiro dia do ano letivo na Universidade Estadual de Maringá (UEM) foi marcado pela desorganização. A Diretoria de Assuntos Acadêmicos (DAA) não providenciou o horário das aulas para os alunos. Muitos calouros não sabiam nem para que bloco deviam ir. Isso gerou uma grande confusão. Alguns estudantes, não tendo ideia da direção que seguiam, foram parar no outro lado da cidade: “Passei direto pelo campus da UEM e rumei para o Cesumar. Vi um local chamado Bloco 10, um monte de gente bebendo e achei que era do meu curso”, afirmou Camille Victoria Andrade, do primeiro ano de Direito.

Basílio de Paula Júnior, de Ciências Sociais, também se perdeu: “Já saí de casa preparado para a festa do primeiro dia, totalmente chapado. Quando fui ver, não deu outra: dei de cara com o comediante Mazaroppi. Depois me avisaram que aquele senhor era importante no Cesumar” – surpreendeu-se o calouro.

Aproveitando a falha da UEM, funcionários do Cesumar não perderam tempo e realizaram um trabalho de convencimento para angariar novos alunos. Com a ficha de matrícula nas mãos, Altair Guerreiro, de Medicina, optou por permanecer na instituição privada: “Não encontrei minha sala na UEM, atravessei a cidade e parei aqui, morrendo de sede. Por sorte os bebedouros daqui funcionam, ao contrário dos da UEM. Melhor do Paraná sem água gelada? Sei não…” – questionou.

A previsão é que os calouros da UEM tenham acesso ao horário e local das aulas só após o carnaval. Até lá, muitos estudantes continuarão perdidos pela cidade. As particulares comemoram. “Quem aparecer por aqui recebe 50% de desconto nas mensalidades e um lanchinho grátis” – anunciou o sócio de uma faculdade privada de Maringá.

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Cara, cadê meu horário?

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Uma lei seca de argumentos

Imagine-se na seguinte situação: Depois de ralar muito tempo como empregado, você abre o próprio negócio – um bar próximo a uma universidade. O seu boteco sempre teve alvará e impostos pagos em dia. Jamais vendeu cigarros e bebidas para menores de 18 anos, nem mesmo deixava a molecada jogar sinuca. De repente, vereadores aprovam uma lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas proximidades das Instituições de Ensino Superior da cidade. O modesto bar, até então o sustento da família, agora não é mais viável e terá que fechar as portas.

A situação descrita, apenas hipotética para o leitor, é real para alguns comerciantes de Maringá que foram diretamente prejudicados com essa lei. Ao me posicionar contra a lei, convido-os a refletirem comigo a respeito de quatro questões pertinentes:

1) A incompetência do Estado para fazer cumprir leis já existentes. Para evitar “tumulto” nas ruas em torno das universidades, leis referentes a aglomeração de pessoas, som alto dos carros, entre outras, dariam conta do recado. Mas o Estado, carente de investimentos em segurança pública, não é capaz de fiscalizar o cumprimento de tais leis. A solução, então, é criar outros decretos proibitivos, afinal, proibir de uma vez é mais fácil (e mais barato) do que fiscalizar.

2) A Lei Seca só está a favor do conservadorismo. Os defensores da Lei Seca afirmam que trata-se de uma medida importante para proteger o jovem da violência e tirá-lo do mau caminho. Ao impor certos limites comportamentais, o Estado assume um papel familiar que não é dele. Em nome do conservadorismo, fatores econômicos são negligenciados. O dinheiro movimentado pelos estudantes universitários possui grande importância para a economia local, inclusive gerando muitos empregos.

3) A guerra declarada que o poder público trava contra os estudantes universitários de Maringá. Somos tratados como o grande mal da cidade. Conservadora e provinciana, a elite coronelista da cidade não aceita que os jovens, além de estudar e se preparar para o mercado de trabalho, também precisam de diversão. Relatos de abuso de violência policial contra estudantes se multiplicam. Enquanto isso, os verdadeiros problemas da cidade que afetam a população jovem – a criminalidade, o tráfico de drogas, o desemprego – estão muito longe de serem resolvidos.

4) A praticidade da lei. O município, agindo de maneira paternalista, “afasta” a comunidade universitária da bebida alcoólica, impondo uma distância de 150 metros da universidade para que um estabelecimento possa vendê-la. Detalhe é que, andando mais alguns metros, ela continua sendo vendida livremente.

Concluindo, a Lei Seca é antes de tudo anticonstitucional, pois proíbe a comercialização de um produto legal, que gera divisas e recolhe tributos. Não há como negar os malefícios causados pelo álcool, porém, medidas que restringem e proíbem o seu consumo em certas circunstâncias já estão em vigor. Proibir a venda de bebidas alcoólicas é um atentado a liberdade de dezenas de comerciantes cumpridores da lei e de estudantes maiores da idade que sabem dos seus deveres e limites.

ilustração: Carlos Emar Mariucci Jr.

Zezinho do Sobrenome Esforçado Silva

Texto de Wil Scaliante*

O garoto tem seus méritos. Todo dia acorda antes do sol raiar pra passar uma forte xícara de café. Seu nome é Zezinho do Sobrenome Esforçado da Silva, mora sozinho, não tem filhos, nem cachorro, a única coisa que tem é seu esforço. Zezinho sonhador, como por muitos é apelidado, trabalha de manhã e de tarde, ganha pouco e estuda de noite. Sonha com o futuro, fazendo o presente, sonha acordado, por que quando joga os cabelos no travesseiro o sonho é pesado.

O jovem todo dia dá duro, tão duro que chega a ficar mole, de pernas bambas e cabeça pesada, mas não reclame por que não gosta de perder tempo se queixando. É feliz por estar realizando seu sonho, que não é uma mansão, um carro importado ou uma casa na praia, seu sonho é o conhecimento. Zezinho agradece ao presidente mesmo sem o conhecer, por ter dado a ele a oportunidade de aprender. Zezinho é bolsista do Prouni.

Filho de Chiquinha do Sobrenome Esforçado,não nasceu em berço de ouro, nem em hospital pago. Zezinho é orgulhoso de si mesmo, se orgulha de saber o que está falando. Quando sabe gesticula, explica, fala, argumenta, critica. Quando não sabe, abaixa a cabeça e escuta, depois pesquisa pra saber se é verdade.

Tão jovem sai de casa as sete e volta à meia noite, pega dois ônibus pra ir pra aula e dois pra voltar. Ônibus mesmo daqueles lotado, que tão raro quanto ganhar na loteria é você conseguir ir sentado. Mas educação não lhe falta, quando uma senhora de idade entra na condução, mas do que rápido, Zezinho levanta e estica a mão.

No ônibus ele enxerga um menino, que tem só dois anos, e no meio de todo essa correria, ele acha tempo pra ser simpático. Pergunta nome, idade e sorri. O menino retribuiu com uma gargalhada e logo em seguida faz charminho de criança e mostra a língua.

Zezinho gosta de crianças, lembra dos seus irmãos e de quando teve infância. Miudinho correndo na rua de casa, chutando bola e brincando com a garotada. Taí outro sonho de Zezinho ter filho, ele imagina como seria o seu menino. Mas ainda não achou mãe pra criança, pois pra ele não é fácil ter tempo pra tanta coisa.

Será que Zezinho tem amigos? Muitos, de faculdade, de trabalho, de rua e vizinhos. Ele gosta de uma cerveja, pra trocar idéias e filosofar ao pé de uma mesa. E olha que Zezinho matava aula de vez em quando, pra esquecer um pouco do dia a dia e tomar uma gelada com a meninada. Mas agora é proibido, parece crime, boteco perto da universidade, só a 150 metros. Uma opção de lazer a menos pra Zezinho, diante de tantas, tantas, tantas que ele tem. São tantas que ele não se lembra de nenhuma outra.

Mas Zezinho é inteligente e orgulhoso, de jeito nenhum aceita ser tratado como criminoso. Enche a boca pra falar que é estudante, e de vez em quando levar porrete de policial. Essa história Zezinho insiste em contar, que certa vez depois de um vestibular, que fez na UEM e não passou. Tava sentando na casa de um amigo, ali na Zona 7 onde mora, e depois da prova, abriu uma cerveja e começou a tomar, dai veio o seu policial pra com ele reclamar. “Agora é lei, não pode mais beber aqui em época de vestibular”. Zezinho não entendeu e foi logo indagar: “que crime cometi por minha cerveja tomar?” Zezinho sempre gostou de ser livre e não aceita repressão e pra todo mundo que encontra, conta a história e diz: “estudante não é ladrão”.

* Wil Scaliante, 20, é estudante de História-UEM , Jornalismo-CESUMAR e dirigente da União Paranaense dos Estudantes.