Quase namorada

Vivina de Assis Viana (1940). O texto foi publicado no livro “Sete Faces do Amor” (Moderna), organizado por Márcia Kupstas.

Antes o telefone tocava e eu nem ligava. Agora fico torcendo, rezando. Morrendo de medo da minha mãe descobrir ou desconfiar.

Não quero que ninguém daqui de casa descubra ou desconfie. Nem daqui nem de lugar nenhum. Rua, clube, escola, nada. Ninguém. Muito menos ele.

Só eu. Mesmo assim, tem hora que duvido. Só quando durmo e sonho com ele é que tenho certeza.

Sonho todos os dias (ou melhor, todas as noites). Basta dormir. Fechar os olhos.

Tem noite que nem precisa. Mesmo com os olhos abertos, já vou sonhando.

Essa noite a gente se casou.

Igreja vazia, só nos dois. Vazia nada, cheiíssima. Pra que mais gente?

Quando comecei a entrar, ele veio correndo. Correndo nada, voando.

Ele veio voando, segurou minha mão, eu segurei a dele e a gente foi andando devagarzinho, um olhando pro outro, igual nas novelas de televisão e nos filmes de Hollywood dos tempos de minha mãe.

Só faltou a gente ser feliz para sempre.

Acordei antes, quase lá, pertinho do altar.

Tentei dormir de novo, ver se o padre aparecia, mas já tinham fechado a igreja.

Mais tarde, na cantina do colégio, dei um beijo no rosto dele, pensando em Hollywood. Tive a impressão de que ele retribuiu pensando na zona norte, essa que a gente vê quando olha pela janela, cada manhã, olhos abertos pra realidade.

Do meu lugar, lá no fundo da sala de aula, vigio cada gesto dele. Cada olhar.

Faço isso por hábito.

Ele nunca tira os olhos dos cabelos crespos da garota da frente.

Se eu pudesse, me escondia nos olhos dele. Castanhos, parecendo absolutamente comuns.

Não são. Sei que não são. São castanhos e incomuns. Outro dia descobri essa palavra (conhecer eu conhecia, claro), e estamos, ela e eu, em lua-de-mel. Incomum, incomum. Gosto das palavras que fazem pensar. Antes eu só falava “fora do comum”. Mas fora do comum é comum, não é? Incomum é que é fora do comum.

Ninguém mais fora do comum do que ele. Nada mais natural, portanto, que tenha olhos castanhos incomuns, onde eu gostaria de me esconder em meus melhores e piores momentos.

Os momentos melhores são os que eu passo pensando nele, isto é, todos.

Os piores são quando desconfio (ou tenho certeza?) que ele não pensa em mim. Acho até que deve pensar, lá do jeito dele, absolutamente incomum.

Mas sonhar, garanto que não sonha. Nem dormindo, nem acordado.

Outro dia, na saída do colégio, levei o maior susto. Ele estava bem do meu lado, coisa mais que fora do comum.

– Você não vai pra casa? – perguntei, sabendo que não estava indo.

– Por quê?

– Você não mora pra lá?

– Meu pai tá viajando.

– Sua mãe também?

– Moro só com meu pai.

– Ah!

– Você não vai perguntar pra onde meu pai viajou?

– Pra onde seu pai viajou?

– Maringá. Conhece?

– Só a música.

– Mentira! Você conhece aquele horror?

– Se você conhece, por que é que não posso conhecer?

– Ah! Tenho meus motivos, pessoais e intransferíveis, como meu pai gosta de dizer. Meu avô nasceu em Maringá, minha avó, meus tios…

– Pois mesmo não tendo avô, nem avó, nem ninguém em Maringá, conheço a música. Quer ouvir?

– Deus me livre!… Sessão de tortura, aqui na rua?…

Minha casa chegou tão depressa que quase inventei mais uns dez quarteirões, vinte, trinta…

Na porta, fiquei sem saber se o convidava pra entrar, igual a um personagem de televisão, que nunca sabe se deve comprar um presente para o professor e acaba sempre comprando. Comigo não foi diferente.

– Só se for rápido – ele disse, já apertando o botão do elevador.

– Seu pai não está viajando?

– É, mas a minha namorada não.

Queria que ele morresse eletrocutado naquele elevador. Ah, na minha frente.

Joguei a mochila no sofá da sala e pedi a Deus que minha mãe tivesse colocado veneno no pão, na manteiga, no café, no suco, em cada grama de tudo que havia naquela mesa.

Cara chato, pô. Chato e comum. Comum e corriqueiro. Corriqueiro e insípido. Insípido, insosso, insuportável, intolerável, intragável, intratável, in, in, in…

Era assim que ele retribuía minhas toneladas de sonhos de todas as noites?

“Minha namorada”. Palavrinhas infernais essas duas. “Minha” e “namorada”. Tão comuns infernais.

Eu devia ter convidado a “minha namorada” também. Assim morriam os dois, eletrocutados ou envenenados. Ali, bem na minha frente. Os dois.

Eu fazia sabe o quê? Comemorava. Co-me-mo-ra-va. Bem comemorado. Sabe como? Em alto estilo. Ouvindo Maringá: “antigamente, uma alegria sem igual…”

Ele não detestava a música? Pois ia ouvir até depois de morto. Vingança pouca é bobagem. A “minha namorada” também. Até depois de morta. Vingança é vingança.

Enquanto a gente comia aqueles sanduíches inocentes, sem veneno nenhum, minha mãe foi fazendo o interrogatório dela. Até hoje ninguém escapou.

Profissão de pai, da mãe, casa ou apartamento, empregada ou faxineira, clube, gato, cachorro, cavalo, zebra…

Meu interrogatório, se existisse, seria mais ou menos assim: “Posso adivinhar seu pensamento? Gravar seu sorriso, sua voz, fotografar seu olhar? Ouvir suas músicas? Sentir seus silêncios? Te ver dormindo? Ficar perto, te olhando? Te esperando acordar? Adivinhando seus sonhos?”

Se eu pudesse, virava uma fada e encantava nossa amizade. Fazia virar amor. Sapo encantado não vira príncipe? Quando eu era criança virava. Gata Borralheira não virava Cinderela?

Vou dar um jeito de virar fada. Se eu não der conta de transformar a amizade dele em amor, quem sabe transformo meu amor em amizade? Só por uns tempos, claro.

A gente vai vivendo, vivendo, sendo amigo e, quem sabe, um dia…

O futuro a Deus pertence. A Deus e às fadas.

Também, pensando bem, amigo é quase namorado. Caminho. Nem meio nem fim, mas princípio.

Quer coisa mais incomum que princípio? A gente nunca sabe o que vai acontecer. Maior mistério.

No maior mistério, se ninguém descobrir, nem desconfiar, sou quase namorada dele. Estou no princípio, no caminho.

Só tá faltando a gente ir ao cinema. A Ana, que já teve muitos namorados, andou me contando.

A gente vai como quem não quer nada, querendo. E deixa acontecer.

Ela não me explicou direito essa história aí, de deixar acontecer. Mas deu umas dicas.

Filme de terror, por exemplo. Nada mais irresistível. Verdadeira fada. Depois que a gente vai ficando perto do cara, pra espantar o medo, não há bruxa que separe.

Na falta de filmes de terror, musical serve. A gente começa a cantar junto com a turma lá da tela, a acompanhar o ritmo com o pé, vai dando vontade de dançar, de encostar, de abraçar e pronto, tá desfeito o encanto. Ou feito, sei lá.

A Ana, que já brigou com muitos namorados, andou me contando mais coisas. Aquela história da faca de dois gumes. Das duas faces de uma mesma moeda.

Depois de muitos filmes de terror e alguns musicais, às vezes namorados brigam. E é comum a amizade acabar. Ou ficar abalada, como diz minha mãe.

Quero e não quero ir ao cinema com ele. E se o terror for pouco e ele pensar que não estou nem um pouco com medo, só fingindo, querendo que ele me abrace?

E se o musical, por uma dessas coincidências infernais, tocar Maringá? Nem que seja só a introdução, uma nota?

E se a nossa amizade ficar abalada?

Mesmo a gente sendo só amigo, tem hora que ele me olha de pertinho e, às vezes, quando ri, parece que se esquece de parar de me olhar. Fica toda vida.

Nessas horas meu coração começa a pular, igualzinho sapo encantado.

Acho que fico vermelha, mas não tenho certeza, porque não carrego espelho na bolsa. Nem na mochila.

Uma vez ele disse que sou a única mulher que ele conhece que não carrega espelho. Achei lindo ele me chamar de mulher.

À noite, olhos ainda abertos, fiquei ouvindo a voz dele: “mulher, mulher…”

Quando comecei a sonhar, o padre estava lá no altar.

Mãos dadas, olhos nos olhos, vestido branco, terno, flores, alianças.

Não sei se tinha mais alguém na igreja. Minha mãe, meu pai, o pai dele, a Ana.

Meu sonho só me mostrava os olhos dele, castanhos, incomuns.

Quando estávamos no meu do caminho, ouvimos um órgão, longe, longe:

Maringá???

Mesmo assim acho que fomos felizes para sempre.

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3 respostas em “Quase namorada

  1. ADORO ESSE TEXTO, MIM FAZ LEMBRAR DA MINHA ADOLECENCIA…MUITAS RECORDAÇÕES DO MEU TEMPO DE COLEGIO..

  2. muitooooooooo lindo cara do meu amoooooooooooooooooooooooooooor PRL

  3. Tenho esse texto copiado na minha agenda… ahahaha acho que tinha uns 12 anos… e isso ja faz mtoooooooooooooo tempo!!! ahahahaha

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