Duas frustrações

Durante as férias que passei em Maringá, não consegui visitar minha tia Ruth no hospital. Seu estado de saúde se agravou e eu tive de adiar a visita. Infelizmente, ela não melhorou antes que eu tivesse de partir e agora isso me frustra muito.

Ainda antes de voltar, assisti “Além da Vida”, último do Clint Eastwood, e pensei muito nela. Sempre que temos alguém em nossa família em situação tão delicada, confrontamo-nos com aquelas velhas questões: qual o sentido de estarmos aqui e o que, de fato, representa a morte? Há um outro lado? E o que há nele? E por que achamos tão difícil aceitar que para isso simplesmente não há resposta, e que dúvidas como essa persistirão mesmo depois que nós não estivermos mais aqui?

Minha tia nos deixou no início da tarde desse sábado e, assim que soube, fui tomado por uma grande nostalgia. Seu nome, na verdade, era Miwako Teramatu Shudo, a segunda de cinco irmãos, mãe de cinco filhas, avó de cinco netos.

Por muitos anos, ela viveu em uma casa na Av. Independência (hoje já demolida), pintada de azul e branco, onde ocorriam muitas das reuniões de família. A residência era guardada pela cadela Laika, uma pastora alemã da qual eu tinha muito medo, que a tia prendia para me receber. Meu tio Pedro era um homem sisudo à primeira vista, mas nos últimos anos se revelou muito inteligente e bem-humorado. A última lembrança que tenho dele é de nós dois jogando damas (ou seria dominó?). Tia Ruth, também sempre bem-humorada e com um grande sorriso no rosto e seu jeito delicado, mudou-se da casa depois da morte do meu tio, em 2005. Geralmente eu a via no terminal. Ela ainda era ativa. A viuvez não a abateu: viajava, andava de ônibus pela cidade, até me acompanhava no cinema. Um exemplo que, acredito, ela quer que sigamos: a vida continua, sigamos nossos caminhos.

Na última vez que a vi, ela disse que eu era corajoso por ter deixado Maringá e começado uma vida em Campinas. Palavras de reconhecimento que eu nunca vou esquecer.

Quando falei de meu bisavô neste espaço, disse que encarava a morte como uma passagem. É o que penso agora: minha tia encontrando com seu pai, sua mãe, seu marido. Demais, não? Um dia estaremos todos lá, olhando os que ficaram e percebendo que, de fato, a morte é só um limite — todas essas lembranças continuam frescas e, de certo modo, minha tia vive. Afinal, ela era uma das pessoas que ocupavam aquele panteão inimutável da infância: quando nasci, ela já estava lá, e vai estar sempre. Pessoas assim não morrem.

(A segunda frustração do título foi não ter pegado um autógrafo de Moacyr Scliar, que faleceu neste domingo. Tive algumas oportunidades, mas nunca deu certo. Um dos meus escritores contemporâneos favoritos. A morte é um limite, sua obra está aí para ser relida e apreciada, mas jamais poderei conhecê-lo.)

Leia mais: Carta da Ossada Branca

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4 respostas em “Duas frustrações

  1. Gustavo, o autor, é um garoto com cabeça de adulto e determinado que tinha quase tudo para viver na marginalidade desta sociedade materialista. Mas, aos 16 anos, tendo passado no vestibular da USP em Campinas-SP, foi-se de Maringá literalmente com a cara e coragem, determinado a vencer todos os obstáculos e realizar seus sonhos, mesmo sem recursos financeiros. Daqui a alguns meses estará vestido com sua toga posando para alguma foto com seu diploma da tão sonhada faculdade na mão. Ele venceu às custas de sua inteligência e valores sólidos. É um exemplo de jovem! A citada tia Ruth é minha mãe, a qual sempre o admirou e teve o privilégio de gozar dessa companhia tão agradável que é o Gustavo.
    Obrigadíssima, Gustavo, por essa crônica linda, a qual tocou o meu coração, assim como o de minhas irmãs!

  2. Entre o ser e as coisas

    Onda e amor, onde amor, ando indagando
    ao largo vento e à rocha imperativa,
    e a tudo me arremesso, nesse quando
    amanhece frescor de coisa viva.

    Às almas, não, as almas vão pairando,
    e, esquecendo a lição que já se esquiva,
    tornam amor humor, e vago e brando
    o que é de natureza corrosiva.

    N´água e na pedra amor deixa gravados
    seus hieróglifos e mensagens, suas
    verdades mais secretas e mais nuas.

    E nem os elementos encantados
    sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
    uma fogueira a arder no dia findo.

    Carlos Drummond de Andrade

  3. Você sabe o que acho dos seus textos. Não preciso dizer nada.

  4. Gustavo, só posso dizer obrigada pelas belas palavras escritas nessa linda crônica.
    Como o texto fala de minha mãe e de meu pai, fiquei emocionada e recordei das reuniões familiares em que você esteve presente.
    Com a dor da saudade e da perda, só posso nesse momento agradecer pelo seu carinho.
    beijos

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