Acervo Folha: highlights

A Folha, como parte das comemorações do 90º aniversário de sua primeira edição, disponibilizou online todo seu acervo. O serviço, por enquanto, é gratuito. E já revela coisas enterradas há muito tempo: acabo de descobrir que, logo depois do meu nascimento, a Globo exibiu Mad Max 2, enquanto David Cardoso e Ivan Lins eram entrevistados no Jô Soares Onze e Meia, no SBT. Nossa cidade, é claro, também está lá. Alguma das reportagens são lindas.

História e vida de Maringá, 5 de maio de 1972 (de Laercio G. Silva, correspondente)

“Se existe entusiamo para se comemorar o jubileu de prata de uma cidade, Maringá supera tudo quanto se possa imaginar. Geralmente, uma cidade com 25 anos é pequena, sua arrecadação é baixa e, consequentemente, não tem possibilidades de preparar festas de grandes proporções. O aniversário de fundação de Maringã será no próximo dia 10, porém as comemorações começaram em janeiro e vão até o final do ano. É conhecida como a ‘Cidade-Parque’ em virtude da rica arborização de suas artérias, do grande número de praças e das reservas florestais, algumas em pleno centro da cidade (…). Não se encontra no Brasil cidade que ultrapasse Maringá em rapidez de progresso. Há um quarto de século da sua fundação, apresenta números surpreendentes e inacreditáveis. O jubileu de prata vem encontrá-la com uma população superior a 150 mil habitantes e uma receira de Cr$ 26.303.889,19 para este ano (…)”. A reportagem destaca, ainda, o Parque do Ingá, a Catedral em fase final de construção, o Horto Florestal, a vida social nos grandes clubes da época e a programação da festa do jubileu de prata promovida pela Secretaria de Cultura (comandada por Luiz Gabriel Sampaio): o Campeonato Norte-Paranaense de Estilingada ao Alvo, a colocação da cruz no topo da Catedral, a inauguração do parque-exposição (com picadeiro para 16 mil pessoas) e a I Expofemar (Exposição-feira de Maringá), para aquele mês, e o concurso Miss Paraná 72, o Congresso da UPES, o Congresso Internacional de Camonologia e o Acampamento Latino-americano de Escoteiros, para os meses seguintes. No pé da página, um grande anúncio com a irônica frase “fuja desta cidade”.

Maringá: muito progresso e apenas 28 anos de idade, 16 de maio de 1975 (de Elpídio Serra, correspondente)

Elpídio Serra era recém-graduado em Geografia pela UEM (hoje é professor do curso) e assinou textos como correspondente da Folha durante quase uma década. Neste texto publicitário, que se afasta do tom crítico da maioria dos trabalhos de Serra, sob a foto de um Silvio Barros I de óculos escuros — antes da inauguração da 2000ª ligação da rede de esgoto na cidade — são destacadas as comemorações dos 28 anos de Maringá. “Levando o conforto aos bairros, o Prefeito visa levar também os recursos da civilização para os maringaenses de menores recursos financeiros”, sobre a inauguração do Centro Esportivo do Jardim Alvorada. Sobre o desfile: “Tudo dentro de um ambiente de confraternização e de otimismo, que tão bem caracterizam a cidade aniversariante”.

Bosques ameaçados em Maringá, 3 de outubro de 1976 (de Elpídio Serra)

Nem tudo eram rosas. Serra ataca: “Em Maringá, a Prefeitura nunca desmatou tanto quanto agora (…). Justamente nestes bosques [Parque do Ingá, Bosque II e Horto] é que o prefeito Silvio Barros vê condições para construir obras públicas sem desapropriar terrenos particulares, evitando desta forma uma ‘sangria’ nos cofres da Prefeitura. Mas ao mesmo tempo em que evita uma desapropriação, ou uma sobrecarga no erário, que poderia ser absorvida a curto prazo, o Prefeito derruba ávores que demoraram mais de cem anos para serem formadas. Uma economia, enfim, que não compensa, considerando-se os danos a que a população estará sujeita quando não mais existirem árvores em Maringá.

Para complicar, nem todas as obras merecem tomar o lugar da mata natural. Exemplo típico: convencido pelo engenheiro Jair Boeira, o prefeito Silvio Barros ordenou um abate indiscriminado de pequenas e grandes árvores, no chamado bosque número dois, para construir uma pista de ‘moto-cross’ (…). Não houve controle e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, como das vezes anteriores, nem se manifestou a respeito (…). No entanto, a obra que mais árvores ceifou foi a Perimetral Juscelino Kubistchek, que cortou lado a lado os bosques número um e número dois (…). A opinião pública ficou revoltada, teve gente que chorou e o IBDF lançou uma multa de cem cruzeiros contra a Prefeitura. Comenta-se na cidade que a multa não foi paga até hoje, apesar de sua importância irrisória”.

Vendedor de milagre em Maringá, 26 de fevereiro de 1977 (de Elpídio Serra)

A “Casa da Benção”, na rua Piratininga, tornou-se notícia nacional dada a quantidade de “gente simples, analfabeta e sofredora” que procurava Miranda Leal em busca de seus milagres — pagos, é claro. A reportagem citava também os programas do missionário na TV, com muletas expostas. Walber Guimarães, então deputado federal, recusou o apoio de Miranda Leal — a troca de dinheiro, é claro — nas eleições municipais do ano anterior, vencidas por João Paulino Vieira Filho. O “milagreiro” parecia só ter mesmo o apoio do vereador Tércio Hilário de Oliveira, que releva que Miranda Leal gastava 80 mil cruzeiros por mês só com programas radiofônicos. Dom Jaime Luiz Coelho, por sua vez, lamentava que as emissoras dessem espaço a quem definiu como embusteiro. A TV Tibagi, de Paulo Pimentel, comentou a declaração do bispo em tom ácido. “Em nota oficial, a emissora informa que foi procurada, diversas vezes, pelo missionário Miranda Leal, interessado em firmar um contrato comercial para a divulgação de seus ‘milagres’. No entanto, apesar de a estação estar em crise (teve cortados todos os contratos comerciais patrocinamodos pelo governo do Estado), o acerto financeiro com o ‘milagreiro’ foi recusado, ‘o que não aconteceu com a Televisão Cultura de Maringá, da qual o bispo diocesano é ‘diretor-presidente'”.

Uma cidade verde no caminho entre Foz do Iguaçu e Sete Quedas, 4 de julho de 1980 (Capa do caderno Turismo, texto de Vander Pratt e fotos de João Padilha, enviados especiais)

Na capa, a Catedral, o Parque do Ingá, o Horto Florestal, o Peladão, o Hotel Bandeirantes (na então praça Desembargador Franco da Rocha) e o Hotel Indaiá (na rua General Câmara). O texto, no interior do caderno, é introduzido com uma breve histórico do município: a inspiração da canção de Joubert de Carvalho, o desmembramento de Mandaguari e a impulsão econômica dada pelo café. “Projeta pelo urbanista Jorge Macedo Vieira, Maringá é tida hoje como uma das mais belas cidades do Brasil. Sua topografia plana e seu traçado fazem lembrar muito Brasília e algumas cidades do interior norte-americano e canadense. Em toda a área urbana, onde residem mais de 250 mil pessoas, nota-se que houve sempre a preocupação de dotar a cidade de requisitos para um desenvolvimento ininterrupto, sem a necessidade de amplicações de última hora e principalmente, sem o perigo do futuro estrangulamento de seus pontos mais centrais. Assim, além das largas avenidades centrais, ela foi dotada de amplas áreas destinadas a empreendimentos sociais, industriais, administrativos e órgãos componentes de uma infra-estrutura urbanística (…). Observada de um avião ou do alto de um de seus edifícios, a cidade mostra sua espinha dorsal, a avenida Brasil, marginada de belas árvores e cuja extensão totaliza 9 quilômetros, do aeroporto até o bairro Maringá Velho; o quadrilátero central formado pelas avenidas Paraná, São Paulo, Tiradentes e Tamandaré; e, entre o verde dos parques, a planura pontilhada de imponentes edifícios de escritórios e apartamentos, mansões, clube sociais e escolas.

Chama a atenção outro detalhe: em algumas avenidas, as copas das árvores, unindo-se no alto, formam verdadeiros túneis verdes por onde a população transita, respirando ar puro, na tranqulidade. Na primavera a cidade se enfeita do roxo dos ipês, do amarelo das flores das sibipirunas e do vermelho e também amarelo das flores das grevíleas. E, por toda parte, sente-se a calma dos espaços amplos, a ausência do rush, o comércio bem distribuído. Maringá é bom para descansar também, como no passado, um porto de esperanças para muita gente. É uma cidade para se visitar e também para se investir”. A reportagem destaca, ainda, em “o que visitar”, o Parque do Ingá, o Horto Florestal e o Bosque II; a Catedral, o Peladão, prometendo a instalação de um museu histórico em seu subsolo; o Centro Esportivo Jayme Canet Júnior, a praça da patinação e a perimetral Sul desde a Avenida Tuiuti até a Av. Luiz Teixeira Mendes, ao longo da qual, e do Jardim América, o visitante poderia ver “belas mansões em vários estilos e chalés pintados em cores vivas”.

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