Finalmente: Paul McCartney no Brasil!

Gustavo T.

Se me pedissem para apontar um só artista, eu responderia na lata: Paul McCartney. Beatlemaníaco desde a 5ª série por iniciativa própria, aguardava por uma oportunidade de vê-lo há pelo menos cinco anos, quando as campanhas na internet por um show no Brasil começaram e pude conhecer toda a carreira solo dele pelo kazaa. A espera paciente chegou ao fim na noite de domingo.

60 mil pessoas tinham o mesmo objetivo: ver o maior artista vivo — nas palavras da Bravo desse mês — ao vivo. Todos com belas histórias. Saí num ônibus monobloco com open bar. O motorista, o Eric, era uma mistura de André 3000 do Outkast com o Otto dos Simpsons. A Lili, professora do Instituto de Física, que levava um belo broche da turnê de 1989/90, que conseguiu num show no Japão, era fã desde os 12 anos, quando uma tia trouxe o LP de Sgt. Pepper do exterior. Paul McCartney, com os Beatles, com os Wings, ou sozinho, fez a trilha sonora da vida de muita gente. Num raio de um quilômetro ao redor do estádio, só se respirava Beatles. Paul dava emprego de duas noites para centenas de cambistas e levaria milhares de fãs à loucura. Até o São Paulo Futebol Clube lucrou. Será que ele tem ideia disso?

Entrando no Morumbi pouco depois da abertura dos portões, consegui um bom lugar na arquibancada e pude ver o estádio enchendo aos poucos. Duas famílias de Vitória estavam à minha volta e até consegui um binóculos emprestado, quando descobri meu lado voyeur — valia tudo para passar o tempo: mais quatro horas até o show, que até passaram rápido. Foi então que realizei que a fila de banheiros químicos lembrava um trem numa curva. Enquanto isso, surgiu uma bola inflável vermelha gigante do Bradesco. O pessoal da pista a jogava de um lado para outro, até que alguém fez o favor de estourá-la — taí um dos melhores momentos que a Globo não mostrou!

Os fãs ensaiavam uma ‘ola’ começando na arquibancada azul e que passava pela laranja até chegar à arquibancada especial vermelha e voltar mais intensa — então o pessoal da arquibanca azul aplaudia. Tipicamente brasileiro. O pessoal da cadeira coberta sacou rápido e acompanhava na parte de baixo numa sincronia perfeita. Ao fundo, tocava baixinho a triste Love in the Open Air, que Paul compôs em 1967 para a trilha sonora de The Family Way, seu primeiro trabalho solo. Memorável. Como não havia banda de abertura, o Twin Freaks (de 2005, em parceria com Roy Kerr), versões antigas de canções dos Beatles e outras coisinhas que fazem sucesso no cenário indie anivam o público crescente. Gostei mesmo de Press, de 1986, e me lembrei que o Paul também anda de metrô, como disse à Rolling Stone desse mês. No Parque do Povo, porém, ele pedalava seguido de seguranças.

Anoiteceu e despontou no céu uma única estrela. Do outro lado do estádio, a lua cheia, lindíssima, revelando algumas nuvens cirrus — e a certeza de que não choveria! Um helicóptero voava em círculos e tomava imagens aéreas. Imagens que percorriam a carreira do Paul passavam no telão. O show começou com cinco minutos de atraso — se é que pode ser considerado atraso — com a seguidinha Venus and Mars/Rock Show/Jet (1975 e 1973), relembrando as famosas turnês dos Wings nos anos 1970. Eu via um Paul McCartney do tamanho de uma formiga falando português e não conseguia acreditar. Depois, All My Loving (de 1963, uma das favoritas do Samuel Rosa, ahahaha!). O estádio veio abaixo pela primeira vez. Logo o astro tiraria o blazer: “Too hot!”.

O show seguiu com Letting Go (1975), uma ótima, mas quase desconhecida, dos Wings; Drive My Car (1965), sucesso dos Beatles; Highway, do novo disco, Electric Arguments (2008), que funciona muito bem ao vivo; a balada Let Me Roll It (1973), com um gostinho de Foxy Lady, do Jimi Hendrix; e… The Long and Winding Road (1970). Aí caiu a ficha. A 27ª do álbum 1. Lembrei dos meus nove anos, quando ouvi-la significava ter viajado por toda a carreira dos Beatles naquele cd, cujo encarte está quase destruído. Fiquei pensando que a vida é mesmo uma estrada longa e sinuosa.

Depois, a eletrizante Nineteen Hundred and Eighty-Five, do Band on the Run — que foi remasterizado e relançado recentemente, daí sua ampla divulgação no show –, Let ‘em In (1976) — que adoro — e My Love, 1973, que ele havia escrito para sua “gatinha linda”, mas que naquela era noite era dedicada a todos os namorados. E uma sequência do tempo dos Beatles: I’ve Just Seen a Face (1965), que por aqui é tocada só em show da Mallu Magalhães (!), And I Love Her (1964) — porque um bolero não faz mal a ninguém (lembrei da minha mãe) — e Blackbird (1968), de arrepiar!

Cansei de ouvir, nas semanas antes dessa noite, que só iriam ao Morumbi para ver um show do John Lennon. Bem, John está morto e, como é tradição nos shows de seu antigo companheiro há anos, Here Today (1982) foi tocada, começando sob os gritos do público: “John, John, John!”. Dance Tonight (2007), em seguida, fez a plateia esquecer da tristeza com a dancinha do baterista Abe Laboriel Jr. Eu bem que preferia uma Natalie Portman! Mrs. Vandeblit (1973) me fez sentir um bobo alegre ao gritar “ho, hey ho!” com aquela multidão.

Mas já fiquei pra baixo com Eleanor Rigby. Em Something, que Sinatra considerou uma das melhores canções de amor de todos os tempos, creditando-a à Lennon e McCartney, uma injustiça histórica com George Harrison, Paul fez uma justa homenagem ao amigo levando esse que escreve às lágrimas. Sing the Changes (2008), uma de suas mais novas, contou com um Barack Obama projetado no telão.

E então… Band on the Run. De novo, o estádio veio abaixo. Começava o clímax do show. Ob-La-Di Ob-La-Da (1968), considerada certa vez a pior música de todos os tempos, é tão ruim que até Drummond a traduziu, emendou com Back in the USSR, outra do Álbum Branco, e depois, I’ve Got a Feeling (1970). Eu já estava em êxtase com duas latas de cerveja (10 reais!). Com Paperback Writer, Paul provou que não estava morto. O suposto acidente em que teria morrido realmente aconteceu, pouco antes da gravação dessa música, em maio de 1966. No clipe, ele aparece com o dente quebrado (será que no domingo a guitarra também era a da gravação original?).

Não há nada que pague ter visto A Day in the Life (1967) ao vivo, considera a melhor dos Beatles por muitos e por mim — aquele grito ecoou por todo o estádio num uníssono. Da arquibancada, podia ver todo o estádio e percer minha voz juntando-se a de todos os outros. Em Give Peace a Chance (1969), uma chuva de balões brancos tomou o estádio. A homenagem, combinada pela internet, deu certo, assim como o “we love you yeah yeah yeah”, que Paul respondeu com “I love you yeah yeah yeah”!

Em Let it Be (1970), outra que me emociona pra caramba, alguns fãs balançavam isqueiros e celulares — o que não era nada perto da pirotecnia de Live and Let Die (1973). Alguns talvez tenham descoberto que essa não é dos Guns n’ Roses. E Roger Moore é meu 007 preferido só porque protagonizou esse filme! Hey Jude (1968) “encerrou” o show com o coro característico. “Agora só as mulheres!”, Paul disse, ensaiando uma dancinha sensual.

A banda agradeceu pela primeira vez — Paul, Wix, Rusty, Ray e Abe — e alguns desavisados começavam a deixar o estádio, ignorando os tradicionais dois bis. Paul voltou pela primeira vez com bandeiras do Brasil, de São Paulo e do Reino Unido e Day Tripper (1965), um dos riffs mais geniais do rock. Lady Madonna (1968) e Get Back (1969)! Outra pausa e só Paul e o violão em Yesterday (1965). A calmaria da música mais regravada de todos os tempos deu lugar à elétrica Helter Skelter (1968) — que não é do U2 hehe. Era o fim do show. “We’re sorry, but it’s time to go”, cantava, na reprise de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967). A apoteótica The End (1969) encerrou a carreira dos Beatles e agora findava o show. Paul, disposto, ainda correu para um lado do palco, chutou um balão, correu para o outro e escorregou nos papeis verdes e amarelos picados, mas se levantou rapidamente e saiu pela coxia. Acabavam assim quase três horas de show que praticamente resumiram minha vida e, talvez, as três horas em pé que mais passaram rápido.

Ainda bem jovem, Paul perguntou se nós ainda precisaríamos dele quando ele tivesse 64 anos. Aos 68 anos, a resposta é óbvia. Valeu, cara!

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6 respostas em “Finalmente: Paul McCartney no Brasil!

  1. Entendo toda essa emoção que você descreveu…eu tambem estava lá, e realmente, não tem comparação o show de Sir Paul McCartney. Sensacional!!!

  2. Eu também estava lá e com certeza jamais me esquecerei daquela noite. A emoção de estar lá na pista ouvindo Sir Paul (já que ver era impossível!) não se explica, só quem viveu sabe o que foi. Minha filha teve o privilégio de ver essa maravilha no primeiro show da sua vida com apenas 10 anos incompletos! Graças a Deus herdou o bom gosto musical.

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