Entrevistamos Andye Iore, organizador do Rockingá

O jornalista Andye Iore é do rock. Por isso, nunca mediu esforços para promover bons eventos musicais na cidade. Neste fim de semana, no Fernandes Bar, dez bandas se apresentam no Rockingá 2010. É a segunda edição do festival (a primeira foi no ano passado). Além dos shows, também acontece no domingo um debate sobre o rock maringaense.

Enviamos algumas perguntas por e-mail para o Andye, que prontamente respondeu. Na entrevista, ele fala sobre o Rockingá, o cenário rockeiro maringaense, a falta de companheirismo das bandas locais e do asco que sente do sertanejo universitário.

Maringá, Maringá: Qual o objetivo do festival?

Andye Iore: Valorizar as bandas locais de rock autoral. Conseguimos uma ampla divulgação e os nomes das bandas circulam pelo país em vários sites. É uma maneira de organizar, fortalecer e chamar mais gente para ter um público mais interessado. O festival faz parte de um projeto que tem os shows quinzenais no Fernandes Bar e ocasionalmente no Tribos, o programa Zombilly no Radio na UEM FM 106,9 (sábado às 18h e quarta-feira às 23h59) e as nossas ferramentas na internet (blog, Twitter, Facebook, Orkut…). Então, só tocam no bar e no rádio as bandas que participam do projeto. Ou seja, prestigiam as outras bandas. Também rola uma amizade bem bacana, com as bandas se conhecendo e se ajudando. Isso não existe em outros projetos, produtores. Geralmente, rola aquela intenção de fazer uma banda de fora, colocar algumas bandas locais para abrir o show e essas bandas locais quase nunca ganham nada. Pior, até pagam para tocar, pagam sua conta no bar. Nos shows quinzenais no Fernandes Bar as bandas ganham um cachê… simbólico é verdade. Mas considerando que o bar não tem bilheteria, não cobra ingresso, é uma coisa muito considerável. Esse valor varia conforme o movimento do bar.

Mgá, Mgá: Como você avalia a cena rockeira maringaense?

Andye: Temos um problema muito grande que é a falta de companheirismo. Muitas bandas não vão nos shows quando não estão tocando. Ou seja, só vão no próprio show. Isso é bem ruim. Temos mais de 30 bandas de som autoral em Maringá. E isso é muito para uma cidade do porte de Maringá, dominada pela cultural do “lixo sertanejo” onde se copia as duplas famosas, as letras falam de traição, chifrudos, bebedeiras, laçar mulher, … enfim, uma pobreza cultural sem tamanho e vergonhosa. Devia prender quem faz música assim! Mas, falando do que vale a pena, se os músicos das bandas fossem aos shows, teríamos muita gente na platéia. Até brinco que não era preciso ter público mesmo, só as bandas já encheriam o bar. Não precisa ir em todos. Mas tem muita banda que não prestigia mesmo. Outro problema é que as bandas de Maringá não tem hábito de trabalhar mais sua produção. Há poucas bandas que fazem adesivo, camiseta, mantem sites atualizados. E isso é uma coisa bem comum no cenário roqueiro dos grandes centros e muito fácil de se fazer. E uma coisa que atrai mais público. Um fator que atrapalha fazer os produtos (camiseta e adesivo) é justamente a falta de pagamento pras bandas nos shows. São quase todos quebrados, proletariados do rock, … Mas depois que nosso projeto tomou corpo muita coisa melhorou. Antes ninguém falava abertamente disso, não criticava as bandas covers, entre outros assuntos, porque tinha medo de represália, de não ser chamado mais tocar em festinha imbecil de que faz show com banda da “modinha” do rock. Agora não. Tem gente que fala, banda que tem mais atitude e tenta andar pelas próprias pernas.

Mgá, Mgá: As bandas covers atrapalham o desenvolvimento do rock maringaense?

Andye: Atrapalhava mais. Hoje as bandas de som próprio já conseguem levar um bom público pros bares sem ter banda de fora. Ainda não é o ideal, mas melhorou muito. Falta mais organização e honestidade em alguns casos. Temos histórias dignas do “Contos da Cripta” em Maringá. Já teve bar que chamou as bandas pra tocar e quis alugar o equipamento do bar pras bandas! Tem gente que quando o show é sucesso de público, publica na internet que deu mais de 300 pagantes, ganhou dinheiro, mas a banda de abertura teve que pagar a conta no bar. Em poucas situações a gente não conseguiu pagar banda de abertura, aconteceu isso já no projeto Zombilly. Bem pouco, mas rolou. E isso me chateou muito. Por isso que tentei criar outra situação. Os esquemas em Maringá são muito complicados. Mas já melhorou também nesse sentido. Falta consciência de que se rolar um esquema mais camarada, as bandas vão se esforçar para divulgar, levar mais gente pro bar. Do jeito que é, as bandas agendam as datas, vão lá, tocam e vão embora. Sabem que não vão ganhar nada mesmo. O problema do cover é bem ideológico pra mim, é coisa de honestidade com quem paga o ingresso pra ver o show. Primeiro porque a banda vai tocar músicas de outros autores que nunca vão saber disso, não vão ganhar nada de direito autoral (se o bar cobra ingresso, teria que pagar). E outra situação que é bem comum é que a maioria dessas bandas toca muito mal esses covers, assassinam as músicas. Por isso que tem tanto filme de zumbi no mundo… são os músicos que já morreram e que são contratados como figurantes nesses filmes de zumbi!

Mgá, Mgá: Quais dificuldades as bandas enfrentam para se apresentarem com repertório próprio?

Andye: Acho que as dificuldades não são muitas. Acho Maringá uma cidade privilegiada no rock. Tem bares de rock, tem muitas bandas e um bom público. Só falta mesmo a articulação entre as bandas, elas se ajudarem, colaborarem entre si. Essa coisa de ficar idolatrando banda que vem de fora é uma merda. Tem muita banda ruim que vem tocar em Maringá e é “endeusada”. Falta mais informação pro público que só vai em alguns eventos específicos. Essas pessoas deveriam ir a mais shows, se informar melhor … a Internet é tão fácil de ser usada. Tem gente que lê gente como Lúcio Ribeiro – que é uma péssima influência pro rock brasileiro – e sai divulgando as coisas dele por aí como se fosse a “verdade absoluta”. Acho que nem ele acredita na maioria das coisas que escreve. Eu saio de Maringá e vou trabalhar em festival em outras cidades, participo de debates, vou cobrir shows, tenho contato com muitas bandas há quase duas décadas. Não vou me restringir ao que uma pessoa escreve ou indica. Tem show em Maringá no rock alternativo que você deveria receber dinheiro para entrar. E ainda cobram R$ 12 ou R$ 15 na bilheteria. Por isso que trouxemos várias bandas toscas, de rockabilly, psychobilly, garage, monobandas… pro público saber o que é rock de verdade e não essa lenga-lenga que ocasionalmente vem pra cidade. Imagina o que passa na cabeça de gente do rock em outra cidade quando vê quem Maringá teve festival internacional de onemanbands de graça?!?

Mgá, MgáQuais assuntos serão discutidos no debate sobre o rock independente de Maringá?

Andye: Tudo isso que foi comentado aqui. Mas será uma coisa informal, com o microfone aberto para as bandas que estiverem lá. Teremos algumas pessoas na mesa, mas será um papo com os amigos. Lembro que no ano passado uma pessoa do rock local me cobrou porque não foi chamada pro debate. Só que ela nunca havia ido em nenhum show e não lembro dela ter divulgado qualquer evento do projeto. Ou seja, só divulga e vai no próprio evento. Nem dei bola, respondi que o festival teve grande divulgação e qualquer pessoa do rock poderia ter ido. Não precisa de convite impresso na gráfica em papel couchê com efeito em relevo pra ir no Rockingá!

Zé do Caixão e Andye Iore

Mgá, MgáQuais os defeitos e qualidades dos tradicionais locais que promovem eventos de rock em Maringá?

Andye: Eu já tive loja de rock – O Porão – e o público de rock é muito ingrato. Reclama muito e participa pouco. Ter uma empresa é muito difícil, tem gastos, impostos, lidar com funcionário dá trabalho, … por mais que você crie algo legal, sempre vai ter gente reclamando. Pô, se não curte os bares de rock da cidade, vá no Juscelino, tem muito show de outro mundo lá…. Teve uma história recente que um cara que gosta de agitar na internet, criar um certo hype, que foi no Fernandes Bar e ficou reclamando de um monte de coisa. Cara, o bar não cobra ingresso, tem um bom atendimento e abriu as portas pro rock na cidade. Vai reclamar o que disso?!? Fica em casa então… o pior é que tem gente que faz isso que é quebrada, não tem grana, não trampa, não faz nada de útil pra sociedade, não ajuda a aumentar o PIB … deveria valorizar o bar e não reclamar. Tem cidade maior que Maringá que não tem bar de rock, não tem tanta banda como aqui. Cara, olhe a importância do Tribo´s… onde tem isso?! Eu curto muito ir lá, fico bem feliz quando nossos shows vão bem lá. É meio complicado lidar com o Juninho (proprietário do Tribo´s) às vezes, mas eu também não sou discípulo do Padre Cícero… então, sempre que posso vou lá tomar uma cerveja, conversar com ele e sempre ajudo no que posso. Sempre publico os shows do Tribo´s no site e falo na rádio. Inclusive os que eu não faço! No geral, acho que falta pra esse povo que reclama, fala/escreve bobagens, é terminar os estudos, arrumar uma profissão, sair da casa dos pais, ter uma namorada, casar… gente que vive no ócio pensa muita besteira… e divulga isso na internet. Chamo esse povo de “indiemo”. Os caras são sensíveis, acham que o mundo não gosta deles.

Eu trabalho pra caramba, durmo muito pouco, leio todo dia, me informo, e ainda faço essas coisas pra dar uma opção de lazer pra quem curte rock como eu e não pode viajar pra ver shows em outros lugares. Faço isso pela diversão e não para ganhar dinheiro. Tenho minha profissão pra isso. Acho que ganhar dinheiro com esse tipo de um show uma grande desonestidade. Em Maringá tem uma tentativa velada de implantar esses esquemas sacanas de associações que fazem eventos e não pagam as bandas. Falam “se quiser tocar aqui, vem por conta própria, se vira idiota…” E tem muita banda que vai. Mas da maneira que puder, vou continuar evitando que isso aconteça aqui. Tem muita gente do rock na cidade que não saca essas coisas. Por isso que não faço parceria com poder público, com programa que um dia fala do rock e no outro sertanejo. Eu sou do rock!

Mgá, Mgá: O Robotnik Club ainda está de pé?

Andye: Claro! Fiquei muito feliz quando o pessoal do Salamanders me chamou para ajudar. Eu só tomo cuidado para eles não mancharem a minha imagem… não é nada bom ser visto com aquele pessoal. Esse festival também será bem legal! As bandas da cidade precisam se mobilizar por ele também porque se der certo, muita coisa bacana vai rolar na cidade.

Anúncios

Uma resposta em “Entrevistamos Andye Iore, organizador do Rockingá

  1. AUHUAHUAHUAHUAHUAHUAHAUAA “Eu só tomo cuidado para eles não mancharem a minha imagem… não é nada bom ser visto com aquele pessoal” AUIAUHAUAUAUA Raxei muito disso AAUHUAUHHUAUAHUA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s