Os macacos e nós

Foto: Edson T., 06.09.98, isto é, há exatos 12 anos

Hoje ficamos todos estarrecidos ao ver um Alexandre Garcia, com desconhecimento de causa, dizer que “em Maringá os macacos é que perderam o pudor; resolveram tirar a tranquilidade dos moradores”. Em parte, a ilusão foi produzida pela sra. Solange Riuzim, meio vizinha dos macacos e a intermediária entre Maringá e a Rede Globo nacional.

Para quem foi criado aprendendo a respeitar esses primatas, qualquer coisa do tipo soa bem mal. Que orgulho ver uma professora fazer uma constatação genial, fundamentada em anos de observação desse fenômeno curioso: “É um bicho, né?”.

Quem veio primeiro: o homem ou o macaco?
Nessa visão irracional, os parques é que ficam dentro da cidade; os macacos, então, se cruzam as cercas do parque, são invasores, gulosos, pequenos demônios que assustam as criancinhas. Mas não fomos nós, desde os pioneiros, que desmatamos e delimitamos a “floresta de outrora”, nas palavras do poeta Ary de Lima, reduzida hoje a alguns hectares de mata de fachada, cercada de asfalto e concreto por todos os lados?

Nossos bosques têm menos vida
Para nós, essa relação de natureza-espetáculo é muito cômoda. Os bosques são apenas objetos de contemplação naqueles finais de tarde em que pessoas bonitas vão fazer caminhada depois de um dia de trabalho — já que fazer caminhada no meio de fumaça dos carros agora é indicativo de qualidade de vida. Enquanto as matas citadinas cumprem a função de mera fachada verde, à mercê dos efeitos de borda, tudo está bem. Ficamos orgulhosos com o verde de Maringá, desde que ele esteja dentro da cerca e fora da fachada de nossas lojas. De fato, desconhecemos e ignoramos o interior de nossos parques. É tudo muito abstrato e superficial. Todos nós decoramos na escola que Maringá tem 26 m² de área verde por habitante, dado que não é atualizado há anos, e nos limitamos a nos espantar quando macacos, lagartos ou quatis resolvem aparecer na cerca para um banho de sol — árvores não têm pernas, mas eles sim. Está criado o problema.

Lembro quando um macaco foi atropelado durante as obras de duplicação da Avenida Nóbrega. O resto do bando velou o corpo inerte do companheiro. O momento foi registrado em reportagem emocionada de Silvia Letícia. Outra reportagem marcante foi a Solange Riuzim mostrando um macaco, coitadinho, com a pata presa dentro de uma latinha de coca-cola. Ela acompanhou todo o trajeto do animal até o veterinário quando, dopado e desmilinguido, livrou-se do duro fardo. Dizem que o macaco ficou viciado em analgésicos e foi parar no Molivi.

Como se vê, fazemos mais mal aos macacos do que eles a nós. Até mesmo quando pensamos estar fazendo bem a eles, comprometemos nossos amigos: obviamente cheetos, trakinas e frutilly, que estoura na boca, farão mal a eles. Então, não dividimos nossos alimentos industrializados com a macacada e jogamos o resíduo nas lixeiras, como cidadãos bem educados. Fim do problema? Não. A Prefeitura deveria estar atenta, pois, a essas lixeiras dispostas ao redor do parque. Elas são abertas e de fácil acesso para os macacos, que se alimentam dos restos de comida e repudiam a má qualidade de nossa panfletagem, que é fatal para a espécie, muito sensível a essa questão de mau gosto.

Defendo aqui o papel ativo da população na preservação de nossos bosques e parques, antes que os problemas cheguem a um nível tal que, num futuro próximo, alguém apareça com a proposta de desmatá-los para loteamento e essa pareça mesmo a melhor alternativa. Pais, professores, blogueiros, filiados ao PV: não vejo como querer discutir a questão ambiental em escala nacional ou global com nossas crianças se nem mesmo conseguimos dar conta dos problemas de nossa cidade.

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6 respostas em “Os macacos e nós

  1. Muito bom seu texto. O que mais me deixa indignada quando faço minhas caminhadas no Bosque 2 é ver pessoas nem noção nenhuma dando salgadinhos, bolachas e outras coisas do gênero aos inocentes macacos. E achando a maior graça dos macacos pegando e comendo. Nossa eu fico muito nervosa. Quer dar algo, dê frutas então… Não bastam os cartazes em volta avisando que eles têm alimentos no bosque… Dá vontade de gritar com eles, mas a boa educação que tive não me permite fazer isso…

  2. Deixa estar… nao vai demorar muito para esses problemas serem resolvidos. Logo, logo, o ganancioso pessoal do setor imobiliario maringaense vai acabar com estes espaços verdes, e construir maravilhosos espigoes… Eh como vcs ja disseram: Se o pessoal dos Barros estivesse em Roma, o Coliseu ja teria sido derrubado!

  3. Invadimos o espaço deles e ainda achamos ruim quando eles dão as caras em nossas casas. De quem é o maior desrespeito? Tenho convicção que não é dos animais!

  4. Se pararmos de dar comida aos macacos, eles vão parar de vir para o outro lado da cerca. As pessoas tratam os macacos como se fossem cachorros (animais ddomésticos que precisam de cuidado), porém não vejo nenhum maringaense cuidando do monte de cachorros abandonados que vagam pela cidade à procura de comida.

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