Melhores da década: Dona Maria Olívia

Foto: Cleber França, 10.07.2006

Vivia no distrito de Içara, em Astorga, a senhora com uma das histórias mais curiosas do país: Dona Maria Olívia da Silva, que tinha 130 anos. Nos últimos anos, no dia 28 de fevereiro, a imprensa local dedicava-se a noticiar a curiosidade e mesmo a fazer cobertura jornalística de uma festa de aniversário bem simples. A supercentenária, que sempre viveu no anonimato, foi “revelada” em 2004 por Aparecido Marcos, da Rádio Astorga.

A declaração de que a longevidade se devia à ingestão diária de ao menos uma banana marcou minha adolescência — por muito tempo, ao comer a fruta, lembrava-me dela.

Fazendo o resgate das notícias recentes, a história parece muito mais curiosa. Além de arroz, feijão e banana, uma reportagem de 2007 revelou que Dona Maria Olívia também adorava tomar Coca-Cola! Vivia com Aparecido, o filho que adotara já septuagenária e que vivia de bicos, com o conserto de sombrinhas¹. Aparecido, em fevereiro deste ano, usando chinelos de cores diferentes, “não soube apontar a idade da irmã, residente em Maringá, tampouco do irmão que mora em Rolândia e é pai do sobrinho que mora na casa de madeira no mesmo terreno”².

Dona Maria Olívia teria tido seu primeiro filho ainda no século XIX, fruto do primeiro casamento, quando ainda era adolescente. Casou-se novamente e era viúva há 45 anos. Teve, ao todo, quatorze filhos, entre os quais 4 adotivos. São quase 400 descendentes.

Embora tivesse o sobrenome da Silva, teria nascido em Varsóvia, capital da Polônia, também conhecida como Itapetininga (SP), em 1880. Os documentos que comprovariam sua idade perderam-se com o tempo, um por inundação, outro por incêndio, e por aí vai. Não tendo como provar sua longevidade, passou o fim da vida tentando resolver o problema da aposentadoria — o benefício fora suspendido pelo INSS.

Forever young
A passagem do tempo sempre exerceu um misto de fascínio e medo sobre as pessoas. Fausto, eternizado por Goethe, vendeu a alma ao diabo para superar a passagem do tempo e do envelhecimento; os alquimistas procuravam o elixir da longa vida… Mas nossa ideia de imortalidade está dissociada do envelhecimento. Ser imortal é ser eternamente jovem. Os valores relacionados à juventude são supervalorizados — não é exagero pensar que palavra de ordem da nossa sociedade é “rejuvenescimento”.

Neste aspecto, Dona Maria Olívia nos faz refletir: a realidade é bem diferente. Viveu muito, foi ao mais próximo do que possa ser “imortal”, mas sem luxo e holofotes. Os episódios de sua vida renderiam um livro — mas ela nunca aprendeu a ler e escrever e só veio a ser conhecida aos 125 anos. É reconhecida, pois, não pela sua vida, de gente anônima e trabalhadora, mas sim pelo acaso de ter chegado tão longe. Resta sua imagem de 130 anos de História — cujos acontecimentos não deve ter pouco acompanhado, pois sempre teve se ocupar de si mesma –, que a tornaram débil e frágil, mas ainda empunhando uma enxada, feliz.

Imagino que, em sua rotina, deveria haver uma felicidade que não conseguiria expressar em palavras. Morreu na noite de ontem como sempre viveu: em paz. Sua história permanecerá no imaginário local durante muito tempo. Dona Maria Olívia não é apenas melhor da década, mas melhor do século, já que representa a força dos anônimos que resistem ao tempo e às dificuldades, dos quais a História sempre esquece.

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