Exemplos que a História nos dá

O professor Leonardo Barci Castriota (UFMG), autor do livro Patrimônio Cultural: conceitos, políticas, instrumentos (Annablume, 2009), durante o III Seminário de Geografia, Turismo e Patrimônio, realizado neste mês na Unicamp, lembrou dois casos nos quais “problemas estruturais”, sempre em circunstâncias obscuras, foram argumentos para legitimar a demolição de edifícios com valor histórico. A antiga Rodoviária de Maringá junta-se, agora, a eles.

Bruno Betiati, 28.05.2010

Palácio da República (Berlim)
Marco arquitetônico do lado de dentro do muro de Berlim, sobre o qual há muito folclore, o Palast der Republik foi construído na Schloßplatz durante a década de 1970, sobre o terreno onde ficava o Berliner Stadtschloss — avariado durante a II Guerra e demolido em 1950. A ideia de uma demolição do Palácio da República, em meados da década — após uma longa e cara reforma que eliminou completamente o amianto da construção –, também gerou protestos. Ela se concretizou em 2006 e se arrastou por anos. Atualmente, no terreno, funciona um jardim público em caráter provisório. Ali, será construído o Fórum Humboldt, com fachada idêntica ao antigo Berliner Stadtschloss! Aqui, podemos pensar a transitoriedade dos elementos que compõem a cidade.

Teatro Carlos Gomes (Campinas)
Construído em 1930, demolido em 1965, na gestão do então prefeito Ruy Novaes, “para evitar os perigos que seu possível desabamento poderá ocasionar e prejuízos ao erário público”. O Teatro deu lugar a um estacionamento (!) e, mais tarde, a um edifício comercial onde hoje funciona uma C&A (!!). Fui a essa loja há um mês, mas desconhecia o antigo uso daquele solo. Pensando assim, até que ponto a memória de uma cidade é preservada somente através de fotografias?

Esta demolição até hoje gera discussões, inclusive com a publicação do livro Fragmentos de uma demolição (Átomo, 2000), do qual tratarei em breve.

Deixo um trecho do poema Mãos Grandes, Espírito Pequeno, de Getulio Grigoletto (1966):

“… Agora que vejo o terreno vazio
Penso quão vazio é este que se diz prefeito.
E imagino-o na solidão de seu gabinete
Deferindo projetos inúteis,
Articulando um futuro pleito.

Também no seu quarto, à noite,
o medo virá à cena na voz de um tenor fantasma.
Será o murmúrio da cidade em sua seqüela,
Lamentando o filho tão mal parido,
Que mesmo feito seu dirigente maior,
(por desavisados)
Ainda cuspiu na honra e na dignidade
Da própria mãe: sua cidade!

E como um ator desqualificado
Que pela mediocridade perdeu seu palco,
Tenta, em vão, chegar ao fim do ato;
Já que a cidade não lhe dará aplauso,
Muito menos, outro mandato.”

Fotos: Wikipedia, Deutsche Welle, ddr-fotos.de, Centro de Memória da Unicamp, getuliogrigoletto.cng.br, Blog Pró-Memória de Campinas.
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